Ontem à noite, preparei meu jantar: uma porção pequena de macarrão à bolonhesa, acompanhado de salada mista com molho de iogurte e um belo vinho tinto seco chileno, provindo das cordilheiras dos Andes. Sentei-me para o deleite de um dos poucos prazeres desta vida e "puft", acabou a energia. A escuridão só não era maior devido à bela lua cheia que a natureza nos presenteava, a qual passaria por mim despercebida, não fosse a providencial falta de eletricidade.
Por sorte lembrei onde havia guardado as velas e os castiçais que havia ganho no último domingo. Presente que, em um primeiro momento, achei um tanto inútil, do tipo que guardamos no fundo da prateleira da estante para que, quem sabe um dia, servisse para algo. As chamas das velas iluminaram precariamente o ambiente, o suficiente para que pudesse terminar o jantar.
Aproveitei que a noite estava enluarada e fui para o jardim apreciar sua beleza. Havia uma brisa fria, nada que um cardigan não desse conta. O cachorro ficou eufórico ao me notar vagando, seu pelo branco refletia o luar e parecia uma ovelha insane saltitando por entre as plantas do jardim. Como sou a única moradora em meio à casas de veraneio desocupadas, o silêncio era assustador. Não notava com frequência, pois a TV e o aparelho de som estavam sempre ocupando o seu espaço. Voltei para o interior da casa.
Passou-se cerca de duas horas em que fiquei privada da luz artificial, o suficiente para os fantasmas da minha mente ensaiarem um ataque. Por sorte, antes que o desespero tomasse conta, a energia se reestabeleceu.
Hoje, lendo o jornal, fiquei sabendo o motivo do blecaute. Um homem havia subido em uma torre de alta-tensão no município de Atlântida Sul, na subestação Atlântida 2 da Eletrosul. O motivo do ato insano, paixão. O apaixonado em momento de loucura, aliás, como louco é todo ser que se apaixona, resolveu chamar a atenção subindo na torre. Ainda bem que não estava por perto, pois senão seria uma daquelas malucas que grita: " -Se joga!!!" Me enquadraria direto no artigo 122 do Código Penal, "instigação ao suicídio...".
Já passei por poucas e boas nesta vidinha, mas nada que me fizesse subir em uma torre de transmissão de energia, correndo risco de morte e prejudicando milhares de pessoas, em razão de um amor não correspondido. Isso tudo ficava bonitinho nos romances do início do século passado. Se sou insensível? Provavelmente. Se insensibilidade significa não perder a razão, então sou mesmo.
Tive meus momentos ridículos, cheguei a chorar e entrar em depressão por amar demais, mas nada que durasse a vida inteira. Não consigo perder tempo com dores e amores, a vida é tão boa e bem mais que isso. Prefiro cuidar das plantas, fazer croché, caminhar na areia sob o sol inspirando o doce aroma do mar, assistir ao bailar das ondas no indo e vindo infinito muito bem registrado na canção do Lulu. E se, por acaso, ao cruzar as dunas notar dois olhos me observando e sorrindo, sorrirei de volta, afinal, sou insensível, mas não sou de aço.













1 comentários:
Ué, pra um jantar caseiro, tudo pareceu muito chique, não?
Pessoalmente, sempre respeitei os suicidas. Ainda que seus motivos para morrer possam ser considerados banais.
E existe mesmo aquele tal artigo do Código Penal?
Tantas mudanças no visual do blog, num curto intervalo de tempo! Mas gostei...
Um abraço.
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